Aumento de mosca-das-frutas em dezembro e janeiro preocupa pesquisadores

Apesar da mosca-das-frutas danificar preferencialmente uvas para mesa, não sendo importante em videiras cultivadas, o ataque é maior em cultivares tardias. O dano consiste na queda prematura dos frutos depreciando comercialmente os cachos.

Segundo o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Adalécio Kovaleski , “em função das condições climáticas desfavoráveis e da produção de frutas nativas hospedeiras da mosca-das-frutas no outono passado, a população da praga estava em níveis muito baixos até a última semana de dezembro. No entanto, a partir do monitoramento que a Embrapa Uva e Vinho vem realizando verificou-se um grande aumento populacional da praga nas avaliações correspondentes à última semana de dezembro e primeira semana de janeiro.”
“Considerando que o estágio de maturação para a maçã já permite o desenvolvimento larval, recomenda-se atenção para que o controle seja intensificado através da aplicação de inseticidas com ação de profundidade e isca tóxica, esta aplicada especialmente nos pontos de entrada da mosca-das-frutas no pomar”, orienta Kovaleski.
Ele recomenda a intensificação do monitoramento utilizando armadilhas McPhail podendo utilizar suco de uva, proteína hidrolisada ou Ceratrap como atrativos, realizando avaliação duas vezes por semana.
O pesquisador alerta para que devem ser observados a carência dos produtos e os níveis de resíduos permitidos nos mercados nacional e internacional bem como para a maçã destinada para a indústria de suco.

Para videira
Já para as pragas da parte aérea da videira, O entmologista Marcos Botton alerta que podem causar danos nas folhas, nos ramos e nas bagas. O ataque da mosca-das-frutas em videira pode causar a queda de bagas verdes ou a destruição dos cachos pelo desenvolvimento das larvas, principalmente nas uvas de película branca. O monitoramento dos adultos pode ser feito com armadilhas McPhail contendo atrativo alimentar a base de proteína hidrolisada e o controle utilizando iscas tóxicas.

Controle
Medindo cerca de 8 mm de comprimento e de cor amarelada, a mosca da fruta macho adulto presenta duas manchas sombreadas nas asas, uma em forma de S que vai da base à extremidade da asa, e outra na forma de V invertido, no bordo posterior.
Já a fêmea apresenta, no extremo do abdômen, a terebra, que funciona para furar e por ovos, Antes da reprodução, as fêmeas necessitam amadurecer os ovários, alimentando-se de proteínas e açúcares.
O número médio de ovos colocados por fêmea é de 400, sendo cerca de 30 ovos por dia num período de aproximadamente 65 dias. Após a oviposição, as larvas eclodem em 3 a 4 dias alimentando-se nas bagas da uva. As larvas passam por três fases até atingir a fase de pupa que ocorre no solo e dura de 10 a 15 dias no verão, até 30 a 45 dias no inverno.
O período de larva, na temperatura de 25°C, demora aproximadamente duas semanas, período que pode se prolongar por até 77 dias dependendo das condições ambientais. A cópula é realizada no quarto ou quinto dia após a emergência do adulto. Após o acasalamento e o amadurecimento dos ovários, a fêmea fecundada procura o fruto da planta hospedeira, na qual faz postura, continuando seu ciclo. Em resumo, o ciclo completo (ovo-ovo), demora, em condições ideais, cerca de 30 dias, podendo se prolongar até três meses ou mais.

Sintomas e danos
A mosca-das-frutas danifica principalmente uvas para mesa, não sendo importante em videiras cultivadas para processamento. O ataque é maior em cultivares tardias. O dano consiste na queda prematura dos frutos depreciando comercialmente os cachos. A picada do inseto é imperceptível a olho nu, porém, em uvas brancas, observa-se através da cutícula semitransparente, as galerias formadas pela alimentação das larvas. A baga é destruída no momento da saída da larva para empupar.
Não existem informações específicas de manejo e controle da praga para a cultura da videira. As recomendações, adaptadas de outras culturas, são as seguintes:
Monitoramento dos adultos através de armadilhas do tipo McPhail contendo atrativo alimentar como suco de uva ou vinagre de vinho tinto a 25%. O atrativo deve ser renovado semanalmente, no momento da avaliação. Como a praga normalmente vem de fora do parreiral, recomenda-se instalar as armadilhas (4/ha) nas bordas do vinhedo. Outro atrativo que pode ser empregado é a torula, utilizando-se 4 pastilhas por litro de água.
A partir da constatação do inseto, fazer aplicação de isca tóxica em 25% da área do parreiral e repeti-la, semanalmente, ou logo após cada chuva. A isca é formulada com proteína hidrolisada ou melaço a 7%, adicionando-se um inseticida na dosagem comercial.
Quando o número médio de insetos atingir mais de 1 adulto por armadilha/semana, realizar aplicação de inseticida em cobertura total. Após a pulverização total da área, a isca tóxica deve continuar sendo empregada, bem como o monitoramento da praga. O controle deve ser repetido somente quando a população (detectada através das armadilhas) voltar a atingir o nível de controle, respeitando-se um intervalo mínimo de 15 dias entre as aplicações de inseticidas em cobertura total.

Armadilha atrativa para mosca-das-frutas
Nos últimos dez anos, a área de cultivo com uvas finas de mesa, no sistema de cultivo protegido na região da Serra gaúcha, tem aumentado em média 80 hectares ao ano, totalizando cerca de 800 hectares na safra 2012/13

Grande parte do aumento da área cultivada deve-se à adoção de novas tecnologias pelos produtores, com destaque para os voltados à produção de uvas finas de mesa, com alto valor agregado, que buscam uma fruta com melhor aspecto visual, sanidade, ausência de resíduos químicos e maturação adequada.
A mosca-das-frutas sul-americana Anastrepha fraterculus (Wied., 1830) (Diptera: Tephritidae) é um dos principais insetos que podem atingir status de praga ao danificar as bagas de uvas finas de mesa Vitis vinifera L. da cultivar Itália, principal variedade de uva cultivada sob plástico na região
Os danos são atribuídos às fêmeas adultas, que perfuram a epiderme das bagas para realizar a oviposição, ou às larvas, que destroem a polpa pelo desenvolvimento e locomoção no interior dos frutos formando galerias, que são facilmente observadas em cultivares com epiderme clara (Figura 3). Outro prejuízo adicional é a queda de bagas verdes devido às puncturas (perfuração causada devido à introdução de parte do ovipositor na epiderme da fruta) realizadas pelas fêmeas.
Além dos danos diretos causados pelas puncturas e galerias, a mosca-das-frutas também auxilia na dispersão de fitopatógenos causadores de podridões que são inoculados durante a oviposição, aumentando as perdas na colheita.

Monitoramento
Um dos pontos fundamentais para estabelecer uma estratégia de manejo da mosca-das-frutas sul-americana na cultura da videira é seu monitoramento. A presença da mosca-das-frutas no parreiral é detectada através do emprego de substâncias atrativas, com destaque para os sucos de frutas, proteínas hidrolisadas ou a levedura torula, dispostas no interior de armadilhas McPhail. No entanto, falhas significativas no controle de A. fraterculus foram registradas em pomares que utilizam sucos como atrativos. Em hipótese, as moscas-das-frutas não são atraídas pelas armadilhas devido à elevada concentração de voláteis emitidos pelas frutas maduras ou em decomposição presentes no parreiral, reduzindo, desta forma, a eficácia do monitoramento. Nestes casos, mesmo com o inseto presente no parreiral, as armadilhas não conseguem atraí-lo, resultando em prejuízos ao produtor.

A avaliação dos atrativos disponíveis no mercado para o monitoramento da mosca-das-frutas demonstrou baixa atratividade do suco de uva e da glicose de milho, além de uma captura equivalente entre a levedura torula e a proteína hidrolisada tradicional (Figura 5). No entanto, merece destaque a atratividade exercida por uma nova formulação de proteína hidrolisada (CeraTrap, BioIbérica S.A.) (Figura 5). Além de uma captura de adultos superior aos atrativos tradicionais, permanece estável por um período de até 60 dias, sem a necessidade de reposição, revelando-se uma nova ferramenta para o monitoramento da espécie na cultura.

Manejo de moscas-das-frutas
De modo geral, o manejo da mosca-das-frutas tem sido realizado através do emprego de inseticidas organofosforados pulverizados em cobertura, associados ao emprego de iscas tóxicas a partir da captura dos adultos em armadilhas de monitoramento. No entanto, devido à retirada destes inseticidas do mercado, a eficácia das pulverizações em cobertura tem sido limitada. Os novos inseticidas disponíveis não têm sido eficazes no controle das larvas presentes no interior dos frutos. Este fato tem obrigado os produtores a utilizar outras estratégias de manejo, com destaque para o emprego de iscas tóxicas.
Devido à estabilidade apresentada pela formulação da proteína hidrolisada CeraTrap (atratividade aos adultos mantida por um período de até 60 dias), a antiga técnica da captura massal passa a ser novamente objeto de estudos para o controle da mosca-das-frutas sul-americana. Esta técnica, descrita pela primeira vez no Brasil na década de 1980 utilizando suco de frutas como atrativo, tem como base o controle dos adultos através da instalação de uma elevada densidade de armadilhas por área.

Armadilhas
Para emprego da técnica, recomenda-se a utilização de armadilhas confeccionadas com garrafas de polietileno tereftalado (PET) de dois litros, de cor transparente (cristal) ou verde, contendo quatro orifícios circulares de 7mm de diâmetro, localizados na porção mediana da garrafa, distanciados equidistantemente entre si no interior das quais o atrativo é colocado sem a necessidade de adicionar inseticidas químicos .
As armadilhas devem ser confeccionadas utilizando garrafas limpas, com paredes translúcidas e sem rótulos. Os orifícios podem ser feitos com auxílio de um arame galvanizado com bitola de 0,89mm, moldado de modo a formar um círculo de 7mm de diâmetro ligado a uma haste de cerca de 20cm.
O círculo de metal formado com o arame galvanizado deverá ser aquecido ao rubro e encostado na superfície da garrafa. Este procedimento promove a formação de um orifício com bordas lisas e bem definidas. Outros procedimentos, como o uso de brocas acopladas a furadeiras, devem ser evitados, pois, embora aparentemente sejam mais práticos, promovem orifícios irregulares que dificultam a entrada do inseto na armadilha e reduzem as capturas.
O volume de atrativo a ser empregado no interior de cada armadilha deverá ser de 300ml, sem diluição. Sua reposição é recomendada durante o ciclo da cultura conforme a evaporação do produto, buscando-se manter o volume inicial.
Experimentos realizados em parreirais de uvas finas de mesa da cultivar Itália sob cultivo protegido na região da Serra gaúcha demonstraram que o volume médio evaporado por armadilha nos meses mais quentes do ano (dezembro e janeiro) situa-se ao redor de 7,5ml por dia. Dependendo da cultivar, o período de ataque da mosca (grão ervilha à colheita) é de aproximadamente 3 a 3,5 meses (90 a 105 dias), sendo que o total evaporado por garrafa pode chegar a 900ml. É importante salientar que este volume de atrativo por armadilha deverá ser considerado no planejamento da quantidade a ser adquirida por safra.
Embora a densidade de armadilhas (número de armadilhas por hectare) possa ser ajustada de acordo com características peculiares de cada parreiral (histórico de infestação, localização da área e presença de hospedeiros nativos da mosca-das-frutas próximo ao cultivo), sugere-se uma densidade de 100 armadilhas/ha.
A localização das armadilhas no parreiral é outro ponto de fundamental importância na correta utilização da técnica. Em função de características diferenciadas de ambiente promovidas pelo cultivo protegido, em especial da barreira física da cobertura plástica posicionada sobre a copa das plantas, recomenda-se a colocação das armadilhas nas bordas do parreiral, penduradas na primeira planta imediatamente abaixo da cobertura plástica. Desta forma, estabelece-se uma “barreira” que reduz de forma significativa a entrada da mosca-das-frutas no parreiral. A altura de colocação das armadilhas é de 1,5m a 1,7m, de modo a facilitar os procedimentos de troca e reposição do atrativo. Para facilitar a colocação das armadilhas no parreiral, pode-se amarrar um fio de cobre esmaltado de 0,5mm e 30cm de comprimento no gargalo da garrafa (Figura 8E).
É fundamental que os produtores acompanhem a infestação ao longo da safra observando os insetos capturados nas armadilhas. Realizando este procedimento, é possível identificar os focos de infestação e, consequentemente, reposicionar as armadilhas aumentando a densidade nestes locais.
Recomenda-se a manutenção das armadilhas até o término da colheita. No entanto, em locais onde existe uma grande diversidade de hospedeiros da mosca-das-frutas e que apresentam frutificação escalonada ao longo do ano, a manutenção das armadilhas durante todo o ano auxilia na redução da infestação.
Após a utilização, as garrafas deverão ser limpas e armazenadas em local apropriado para serem reutilizadas na safra seguinte, ou, ainda, poderão ser instaladas em outros cultivos, especialmente aqueles próximos a bordas de mata ou de hospedeiros alternativos da mosca-das-frutas. Devido à composição pastosa adquirida pelo atrativo com o passar do tempo, existe a necessidade de adicionar algumas gotas de detergente neutro à água utilizada na limpeza das armadilhas ao final da safra.
Nos experimentos conduzidos em parreirais de uva fina de mesa da cultivar Itália cultivada sob cobertura plástica nas safras 2011/12 e 2012/13 na região da serra gaúcha foi registrada uma redução significativa de danos causados pela mosca-das-frutas em comparação ao manejo convencional que tem como base a aplicação de inseticidas em cobertura (fentiona), demonstrando a viabilidade de uso desta tecnologia na cultura da videira
Porcentagem (%) de cachos de videira da cultivar Itália com presença de galerias causadas por larvas de Anastrepha fraterculus no período de colheita.
A proteína hidrolisada CeraTrap é uma alternativa para o monitoramento e o controle da mosca-das-frutas sul-americana no cultivo protegido de videira através do emprego da técnica da captura massal.
A grande atratividade apresentada pela proteína hidrolisada CeraTrap torna possível a redução da população de moscas-das-frutas no interior dos parreirais conduzidos no sistema de cultivo protegido. Esta redução da população resulta em menores danos às bagas e, indiretamente, na diminuição da mão de obra destinada ao raleio de bagas em uvas finas de mesa.

Como fazer uma armadilha

1º passo
Usando a caneta para retroprojetor, desenhe sobre o rótulo da garrafa três quadrados com dois centímetros de lado cada um. Faça-os a uma distância de oito centímetros um do outro, aproximadamente, e todos na mesma linha. A presença do rótulo não é obrigatória, mas facilita o desenho dos quadrados.

2º passo
Aqueça a ponta do canivete ou do estilete e corte os quadrados, seguindo as linhas marcadas pela caneta. Depois, retire o rótulo. Caso o molde seja feito diretamente sobre o plástico, recomenda-se retirar os excessos de tinta da caneta com um pano embebido em álcool para manter a garrafa totalmente transparente e evitar que a armadilha se torne menos atrativa para o inseto.

3º passo
Pegue o arame e prenda uma das extremidades no gargalo da garrafa. A outra ponta será pendurada na copa da fruteira, a uma altura de 3/4 do tamanho da árvore, a partir do solo. Instale a armadilha em um galho mais periférico e menos exposto ao sol. Em pomares com uma única espécie frutífera, coloque os recipientes nas plantas mais afastadas, a uma distância de 50 a 200 metros uns dos outros para impedir que as moscas infestem as plantas que estão no interior da lavoura. Dependendo do tamanho do talhão, coloque de duas a quatro armadilhas por hectare.
Os buracos vazados na garrafa servirão de “porta” de entrada para o inseto. Faça no máximo quatro furos para evitar que a mosca fuja da armadilha.

Fotos: Divulgação

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