Problemas que podem ocorrer devido às mudanças climáticas na cultura do pessegueiro

Durante o outono e o inverno as frutíferas de clima temperado cessam suas atividades fisiológicas e entram em período de dormência para que possam resistir às baixas temperaturas e se preparar para o próximo ciclo. Para que as gemas floríferas e vegetativas do pessegueiro saiam do repouso é necessário o acúmulo de horas de frio a temperaturas inferiores a 7,2°C.

Devido à grande variação de temperatura que vem ocorrendo, o descanso hibernal do pessegueiro e da ameixeira poderá não ser suficiente provocando anomalias na planta, caracterizadas pelo incompleto desenvolvimento das gemas florais e vegetativas. Há um atraso na floração e na brotação, sintoma conhecido como “foliação retardada”, floração desuniforme e foliação deficiente, queda de flores e de frutinhos, explica Melissa Maxwell Bock, Engenheira Agrônoma da Emater.

A falta de frio muitas vezes, tem sido solucionada através do uso de produtos químicos, os quais têm apresentado resultados satisfatórios. Entretanto, algumas vezes os resultados são contraditórios, principalmente em locais onde a exigência em frio é parcialmente suprida. Dentre os produtos mais usados para a superação da dormência, a cianamida hidrogenada tem sido aquela que tem proporcionado os melhores resultados. É utilizada a uma concentração de 0,6 a 0,8% com 1% de óleo mineral emulsionável, com pulverizações entre 30 a 45 dias antes da época normal da brotação. Quando aplicado sobre ramos verdes, folhas, flores ou frutos é fitotóxico.

Nesse ponto, faz-se apenas uma ressalva, para que os produtores observem o fim de outono e o inverno, se a disponibilidade de frio ocorrida até o momento já foi suficiente para acionar o estado de dormência recomenda-se que não seja feita a pulverização com indutor de brotação.

A necessidade de horas de frio de cultivares varia de 100 até 1000 horas

A ocorrência de frio dentro das exigências de cada espécie/cultivar é de grande importância, pois é a condição mínima para que as plantas atinjam o máximo de uniformidade de brotação e tenham a garantia de produção no próximo ciclo. Ou seja, caso o frio não atinja a demanda da espécie/cultivar é necessário o uso de tratamentos para estimular a brotação, conforme citado acima.

As geadas pouco antes, durante e depois do florescimento, consistem em um dos mais sérios problemas da cultura. De acordo com a região, o pessegueiro floresce de julho a setembro, durante um período que dura de sete a quinze dias, dependendo da cultivar e do clima. Os órgãos mais sensíveis as baixas temperaturas são o pistilo e as anteras. A flor, na fase de botão rosa, pode resistir até a -4°C, a flor aberta até -3°C e o frutinho recém formado até -1°C.

De acordo com o boletim mensal divulgado pela Embrapa Uva e Vinho que disponibiliza mensalmente os dados meteorológicos, em Bento Gonçalves, o mês de julho foi marcado por fortes oscilações na temperatura do ar. Considerando as médias mensais, as temperaturas máxima, mínima e média se mantiveram acima do padrão normal, porém, quando são observados as médias decendiais, no 1º e no 3º decêndio foram registradas temperaturas acima da média e no 2º decêndio as temperaturas médias ficaram abaixo do esperado, especialmente influenciadas pelas baixas temperaturas registradas entre os dias 17 e 20 devido à forte massa de ar polar que avançou pelo estado do RS. Apesar das baixíssimas temperaturas observadas nos referidos dias, a situação de destaque e que desperta preocupações são as temperaturas elevadas que podem afetar a brotação das videiras e, consequentemente, comprometer a produção da safra 2017/2018. Foram registradas 92 horas de frio (HF) abaixo de 7,2 °C, ao longo do mês, acumulando entre abril e julho o total de 171 HF. Outro destaque deste mês foi o baixíssimo volume de chuvas registrado, 29 mm, enquanto o esperado seria 161 mm.

Em junho de 2016 foram registradas 143 horas de frio abaixo de 7,2 °C, ao longo do mês muito mais horas de frio quando comparado a este ano.

Fotos: Marlove Perin