Safra da uva deve encerrar nos próximos dias

Chuva de granizo destruiu parreiras em outubro do ano passado. Colheita está chegando ao final e será menor em 2019

Na propriedade do agricultor Ildo Perin, na Linha Alcântara a colheita da fruta encerrou no último final de semana

Margô, que ajudar a tocar a propriedade na família Perin

A colheita da uva na Serra Gaúcha deve ser finalizada nas próximas semanas. Na propriedade do agricultor Ildo Perin, na Linha Alcântara a colheita da fruta encerrou no último final de semana.
Em Monte Belo do Sul, ele cultiva nove hectares de parreirais das mais diversas variedades. A previsão da colheita rendeu mais que o esperado em virtude das condições climáticas, ele se diz satisfeito quanto a safra deste ano.
“Como tivemos um inverno rigoroso, a brotação foi bastante uniforme nos vinhedos, porém o início de janeiro houve vários dias de chuva que prejudicaram as variedades precoces. Mesmo assim, a qualidade da safra foi boa, embora não como no ano passado” analisa Margô, que ajudar a tocar a propriedade na família Perin.
Na colheita das variedades intermediárias, houve uma pequena melhora. Margô explica que o tempo mudou um pouco e teve um período ensolarado o que melhorou o grau da uva.
No geral, a safra no Rio Grande do Sul vai ser menor este ano. Por conta de uma chuva de granizo que destruiu parte das parreiras em outubro do ano passado, segundo a Emater, os agricultores da região devem colher aproximadamente 635 mil toneladas até o fim da safra 2019, em março – cerca de 20% menos que em 2018.
As cidades de Nova Roma do Sul e Nova Pádua foram as mais atingidas. Alguns viticultores perderam cerca de 90% do que tinha produzido. Mesmo com uma produção menor, a safra da uva deve injetar quase R$ 700 milhões na economia da região da Serra Gaúcha.

Segue entrevista feita em conjunto com os pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho, Mª Emília Borges Alves, Lucas Garrido, Fábio Cavalcanti, Mauro Zanus com apoio do técnico Adriel Marconatto:

1 – Esta ocorrendo uma das piores safras para o setor vinícola como granizo e excesso de chuvas, gostaria que o pesquisador falasse um pouco deste fenômeno, se tem alguma explicação se é causado por algum fenômeno?
As chuvas, considerando o volume, estão dentro do normal. Já, considerando a frequência, esta sim está acima do normal. A umidade elevada durante muitos dias seguidos no período de colheita pode contribuir para a ocorrência de doenças fúngicas, alteração da qualidade do fruto e, sobretudo, prejudicar as operações de colheita.
Estas ocorrências podem ser atribuídas ao fenômeno El Niño e ao registro de temperaturas elevadas das águas do Atlântico Subtropical (anomalia positiva) entre a costa da Argentina e o Rio Grande do Sul que, também, contribui com aumento da concentração de umidade no estado e temperaturas máximas acima das normais.
Esta safra não pode ser considerada tão ruim assim pois ainda está em curso e, a depender das condições de fevereiro, poderemos ter boa qualidade das uvas de maturação intermediária e/ou tardia, como a Isabel, Moscato Branco e Cabernet Sauvignon. As fortes chuvas de janeiro impactaram muito as condições das variedades precoces, como a Chardonnay e Pinot Noir- e de maneira muito forte na Metade Sul do Rio Grande do Sul.

2 – Sobre as horas de frio, quantas foram em 2018? Se foram suficientes ?
Em Bento Gonçalves o número acumulado de horas de frio abaixo de 7,2ºC foi de 389 horas entre abril e setembro de 2018. Esse acumulado é considerado suficiente para a maioria das variedades de uva. Dessa forma o inverno de 2018 pode ser considerado normal sob o ponto de vista das temperaturas, garantindo boa brotação e potencial produtivo das plantas. A redução da quantidade de uvas nesta safra deve-se, principalmente, aos eventos de granizo no final de outubro, que ocorreram em diversas áreas da região.

3 – O que o excesso de umidade causou e qual a orientação a ser dada para os produtores?
Apesar de já termos vivenciado anos mais complicados que este, a primavera desta safra foi relativamente chuvosa e fez com que as plantas desenvolvessem bastante vigor e forte brotação. Nessas condições o desenvolvimento do míldio (‘mufa’) foram favoráveis, demandando maior número de tratamentos fitossanitários. Chuvas frequentes durante a fase de maturação das uvas favorece uma incidência maior de fungos causadores de podridões do cacho. Doenças como a podridão-cinzenta e a podridão -da- uva-madura são comuns nos vinhedos na fase de pré-colheita. O que fazer? Os produtores devem continuar as pulverizações com fungicidas, respeitando o período de carência e ou a utilização de produtos biológicos registrados. Caso o produtor não tenha realizado algumas práticas importantes anteriores, como a eliminação dos cachinhos mumificados da safra anterior, antes da poda das videiras, a aplicação de fungicidas específicos para controle de podridões durante a floração, grão-ervilha e fechamento do cacho, o controle será mais difícil nessa fase final. Também tem sido frequente a incidência de secamento de bagas de uva resultante do dessecamento da ráquis devido a deficiência de magnésio e o alto teor de potássio dos solos.

4 – Findada a safra, o que é aconselhado a ser feito?
Após a colheita é importante continuar controlando as doenças das folhas, para que os ramos possam amadurecer e acumular as reservas nutricionais para o ciclo vegetativo seguinte e retirar do vinhedo todos os cachinhos apodrecidos que permaneceram na planta, queimando ou enterrando.

Janeiro mais quente em 43 anos
Segundo análise da Embrapa Uva e Vinho, o mês de janeiro foi o mais quente dos últimos 43 anos em Bento Gonçalves. Ou seja, desde 1976 não fazia tanto calor neste período do ano. Somadas a isso, as chuvas excessivas prejudicaram o desenvolvimento da uva. A Embrapa avalia que está sendo necessário produtores utilizarem tecnologia de forma mais assertiva para reduzir os danos ocasionados pelo clima.

Siba mais sobre o mundo da uva 
* A previsão é colher cerca de 635 mil toneladas de uvas, destinas a vinhos, sucos e espumantes. Cerca de 20% a menos que a safra passada.
* O preço mínimo do quilo da uva foi definido em R$ 1,03 pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
* A venda de espumantes cresceu 13,4% até outubro de 2018. A de suco aumentou 22%
* A queda nas vendas está nos vinhos finos, com – 3,4%
* No total (todos os derivados da uva), o saldo até outubro foi positivo, com quase 37 mil litros a mais (12,8%)
* A importação de vinhos, sucos e espumantes também caiu no ano assado: – 9,77%. Fonte: Emater/RS Ascar e Ibravin