O suco de uva ganha seu dia oficial na Serra Gaúcha

 

O suco de uva ganhou um dia alusivo no calendário regional. Marcado oficialmente como o Dia Regional do Suco de Uva, o primeiro domingo do mês de março será destinado a valorizar um dos principais produtos da cadeia vitivinícola gaúcha. Responsável por mais de 50% da produção do setor, a bebida vem garantindo a sustentabilidade de pequenos e médios negócios na Serra Gaúcha, onde estão concentrados 90% dos fabricantes brasileiros. O lançamento da comemoração foi realizado no dia 18 de outubro na Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves.
A criação da data alusiva partiu de iniciativa de um vereador de Bento Gonçalves, Edson Biasi, que vislumbrou no produto uma bandeira em defesa da vitivinicultura da economia da região. Outros oito municípios da Serra, principal polo produtor de uva no Estado, já foram procurados por Biasi e estão no caminho de implementar o dia do suco. O vereador também está articulando a promoção nas esferas estadual e federal.
Além de registrado no calendário dos municípios participantes, o Dia Regional do Suco de Uva também servirá para a realização de ações de promoção da bebida, informando sobre os benefícios à saúde, promovendo o turismo, fortalecendo a economia e resultando no aprimoramento da cadeia produtiva da uva. “A ideia é evoluir para o dia estadual e depois nacional”, revela o chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho, José Fernando da Silva. Ele destaca o crescente protagonismo do suco de uva na cadeia vitivinícola. “O suco de uva é um produto que concorre com o vinho tradicional, que era comercializado em garrafão e hoje é vendido em garrafas de 750 mil”, situa Silva.
Segundo o pesquisador, a queda na demanda por vinho a granel, que até há alguns anos era vendido para outros estados, principalmente do Centro do País. “Houve uma mudança, em função do surgimento de produtos substitutos e a cadeia produtiva se reestruturou.” Em 2004, apenas 25% de toda uva processada no Rio Grande do Sul era vendida na forma de suco e 75% chegava ao mercado como vinho. Estes números mudaram: atualmente, 52% da uva processada é destinada à produção de suco.
Desde 2014, a Cooperativa Vinícola Nova Aliança, localizada em Flores da Cunha, investiu mais de R$ 100 milhões para elevar e qualificar a fabricação da bebida, produzida a partir de uvas americanas. “Naquele ano, construímos uma planta nova (com 24 mil m² de área) no município, e em 2017 ampliamos a filial de Farroupilha (atualmente com 5 mil m²), e modernizamos o maquinário para processamento e elaboração do produto nas duas unidades”, comenta o diretor administrativo da Nova Aliança, Rodrigo Colleoni. Segundo o gestor, o suco de uva representa mais de 50% do faturamento da cooperativa.
O foco é o mercado interno, mas já há estudos para exportação do produto, afirma Colleoni. “Atualmente, produzimos mais de 20 milhões de litros por ano, distribuídos por todo o Brasil.” O diretor da Nova Aliança considera o lançamento do Dia Regional do Suco de Uva como “um marco importante, que com certeza vai ajudar a divulgar o produto em nível nacional”. “O suco de uva se tornou fundamental para o sustento do setor, uma vez que o consumo de vinho não tem crescido tanto.”
Depois da abertura do evento, que contou ainda com a participação dos Prefeitos de Cotiporã, José Carlos Breda, de Pinto Bandeira, Hadair Ferrari e de Monte Belo do Sul, Adenir Dallé, vereadores, secretários, lideranças, produtores, técnicos e autoridades de Bento e região, puderam conferir algumas palestras que reforçaram ainda mais a importância do suco de uva.

Palestras
As cultivares de uva desenvolvidas especialmente para qualificar o suco de uva brasileiro foram apresentadas pela pesquisadora Patrícia Ritschel, que coordena o Programa de Melhoramento Genético ‘Uvas do Brasil’, liderado pela Embrapa Uva e Vinho. Incrementos de cor, sabor e açúcar são resultados das novas opções de cultivares, como a Isabel precoce, BRS Violeta e BRS Magna, cujos sucos foram degustados pelos presentes ao final.
“Com sede de suco de uva” – essa é a melhor forma de descrever o sentimento da plateia após assistir a palestra que aborda os benefícios do suco de uva à saúde humana, apresentada pela Biomédica Caroline Dani.No lançamento do Dia Regional do Suco de Uva não foi diferente. Ela citou inúmeros benefícios aos consumidores de suco e ressaltou que não tem nenhuma contra-indicação. Ela também divulgou aos interessados em aprofundar os conhecimentos que poderão acessar o site elaborado especialmente para este fim no sugestivo endereço:https://drauva.com.br/.
Ao falar sobre a Evolução mercadológica e produtiva do suco, o chefe-geral e pesquisador em socioeconomia da Embrapa Uva e Vinho, José Fernando da Silva Protas, foi taxativo ao afirmar que o suco de uva foi a salvação da cadeia produtiva. “Esse é o produto que absorve o maior volume de uva produzida no Rio Grande do Sul. É o suco que está sustentando o nosso viticultor”, sentenciou ele. Protas apresentou índices do ano de 2004, quando cerca de 75% da uvas eram destinadas à elaboração de vinho comum e apenas 24% ao suco. Já em 2017, 53% dessas uvas foram destinadas ao suco, possibilitando um rearranjo da cadeia produtiva e o destaque para essa bebida. Em 2018 foram comercializados 140,5 milhões de litros de suco de uva integral produzidos no Rio Grande do Sul.
Alimentação escolar
A nutricionista da Secretaria Municipal de Educação, Renata Geremia, apresentou durante o espaço “Movimento em prol do suco de uva” o case da Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves no qual, desde o ano de 2005, o suco de uva é alimento obrigatório na alimentação escolar, regulamentado por Lei 3.810/2005. “Mensalmente são servidas, em média, 324.100 refeições para 10.432 alunos das 44 escolas do Município, sendo 100% desse valor destinado à agricultura familiar”, complementou ela. Exemplo esse que deve ser seguido pelo estado de Pernambuco, segundo comentou o empresário Eurico Benedetti, a partir do projeto de lei que inclui o suco de uva integral na alimentação escolar da rede pública estadual de Pernambuco. De autoria do deputado Antonio Coelho, o projeto já foi aprovado em duas comissões temáticas da Assembleia Legislativa e prevê a aquisição preferencialmente de agricultores familiares daquele Estado.
Além de registrado no calendário dos municípios participantes, a intenção é de que a data estimule a realização de ações de promoção da bebida, informando sobre os benefícios à saúde, promovendo o turismo, fortalecendo a economia resultando no aprimoramento da cadeia produtiva da uva.

Categorias
Suco de uva 100% integral – 100% suco de uva, sem aduição de água e açúcar na concentração natural.
Suco 100% – 100% suco de uva, sem adição de água e açúcar na sua concentração.
Bebida/refresco – 30% de suco de uva, diluído em água e adoçado, podendo ser colorido e aromatizado artificialmente.
Néctar – 50% de suco de uva, diluído em água e adoçado.
Em pó – pode não conter uva em sua composição.

Maior volume comercializado é do produto à base de uva integral tinto
A safra de 2019 rendeu uma produção de 51 milhões de litros de suco de uva no Rio Grande do Sul, segundo dados do Sistema de Cadastro Vinícola da Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural. A maior parte desse volume (48 milhões) é de fabricação de suco de uva integral tinto. Já os orgânicos representam 628 mil litros desse universo.
Segundo a Embrapa Uva e Vinho, em 2018, foram comercializados 140,5 milhões de litros de suco de uva integral produzidos no Estado. A versão integral ou natural é aquela cuja composição é de 100% de fruta, sem adição de água ou açúcar. Ao considerar também o suco concentrado convertido para suco simples, o volume total, em 2018, foi de 258,33 milhões de litros, segundo a pesquisadora da entidade, Loiva Ribeiro de Mello.
“Do total de uvas processadas em 2017 pelas vinícolas gaúchas, 49,1% foram destinadas à produção de sucos de uva prontos para o consumo”, observa o coordenador de Vitivinicultura do Sebrae-RS, André Bordignon. “As vendas de suco de uva passaram de 100 milhões de litros em 2015. O aumento nas vendas entre os anos de 2005 e 2015 chegou a 367%.”
Bordignon observa que as variedades de uvas para produção de suco “são muito bem adaptadas às condições climáticas e aos solos gaúchos”, sendo uma boa alternativa para pequenas propriedades rurais de agricultura familiar. “Mais de 15 mil famílias estão envolvidas de forma direta com a produção no País, com uma média de 2 hectares de videiras por família.” Entre os cultivares de uvas mais plantados estão as chamadas uvas híbridas ou americanas, com destaque para a Isabel, a Concord, a Bordô e a Niágara.