Na pandemia, vendas de vinhos brasileiros crescem nos primeiros quatro meses do ano

A comercialização somou 4,4 milhões de litros entre janeiro e abril de 2020, ante 3,2 milhões de litros do primeiro quadrimestre do ano passado Foto: Marlove Perin

As vendas de vinhos brasileiros aumentaram 39% nos quatro primeiros meses deste ano, em relação ao mesmo período em 2019. A comercialização somou 4,4 milhões de litros entre janeiro e abril de 2020, ante 3,2 milhões de litros do primeiro quadrimestre do ano passado. Foram vendidos 35 milhões de litros de vinhos finos nacionais e importados nos quatro primeiros meses de 2020, um incremento de 10% em relação a janeiro e abril de 2019, quando foram comercializados 31,9 milhões de litros. As informações foram compiladas e analisadas pela Associação Brasileira de Sommeiers (ABS-RS), com base nos dados do Cadastro Vinícola, mantido por meio de parceria entre a Uvibra (União Brasileira de Vitivinilcura, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul. “Os números comprovam o que a nossa percepção apontava: o vinho é a bebida da pandemia do coronavírus”, afirma o presidente da ABS-RS, Orestes de Andrade Jr. “As pessoas ficaram mais em casa e escolheram como companhia uma bebida essencialmente sociável e que faz bem pra saúde, se consumida com moderação”, avalia.

As pessoas ficaram mais em casa e escolheram como companhia uma bebida essencialmente sociável e que faz bem pra saúde, se consumida com moderação”, avalia o presidente da ABS-RS, Orestes de Andrade Jr Foto: Divulgação

No total, incluindo os vinhos de mesa, foram comercializados 97 milhões de litros de vinhos finos e de mesa nacionais e importados de janeiro a abril de 2020, um crescimento de 21% em relação ao mesmo período do ano passado. O presidente da Uvibra, Deunir Argenta, confessa que ficou surpreso com o resultado expressivo na comercialização de vinhos brasileiros neste início do ano. “Estávamos com alguma dificuldade no mercado de vinhos finos nos últimos anos, mas agora estamos animados com a onda de valorização do produto nacional”, comemora.
Segundo Argenta, as vinícolas brasileiras tiveram uma resposta ágil na pandemia. “Vendemos mais porque as vinícolas se mexeram rápido e passaram a vender pela internet. A média de aumento das vendas on-line é de 80%. E quem não comercializava pelo seu site, passou a fazê-lo”, conta. As vinícolas também passaram a se comunicar mais com seus clientes, por meio de lives nas redes sociais e pelos canais de contato direto. “Foi criado um movimento altamente favorável ao vinho brasileiro. Temos uma excelente oportunidade, talvez única, de conquistar um espaço na preferência do consumidor para o vinho brasileiro”, comenta o presidente da Uvibra. Argenta revela que o mês de maio, pelos números preliminares da entidade, vai ser ainda melhor ainda. A perspectiva para o inverno é muito positiva.
A consultora e diretora do Ibravin, Andreia Gentilini Milan, especialista em análise de mercado, observa que os vinhos brasileiros vinham perdendo mercado para os importados de 2015 com uma leve recuperação em 2019 (+5,26%). Mas durante a pandemia, os rótulos brasileiros conseguiram crescimento acima de dois dígitos, impulsionado pela comercialização nos supermercados até R$ 30,00, que representam 70% das vendas de vinhos finos. “Como em outros países, os brasileiros estão bebendo mais vinho durante o confinamento. Estão comprando em supermercados, mas também estão migrando para lojas on-line e adquirindo produtos diretamente de importadores e vinícolas por meio do WhatsApp”, informa.

*Importados*
Apesar de mais tímido do que os rótulos nacionais, os vinhos importados também tiveram acréscimo nas vendas e alcançaram maior volume – 30,6 milhões litros –, 7% superior aos 28,6 milhões de litros de janeiro a abril de 2019. “A dificuldade logística, com dificuldades nos embarques de produtos na origem e no destino, e o câmbio alterado para cima impediram um crescimento maior na venda de vinhos importados”, avalia Andreia Gentilini Milan, que junto com Orestes de Andrade Jr. estão dando um inédito curso on-line sobre “Comunicação e Mercado do Vinho” para alunos de mais de 12 estados brasileiros e até do exterior.
A importação de vinhos aumentou quase 50% em quatro anos, passando de 77,6 milhões de litros em 2015 para 114 milhões de litros em 2019. O maior incremento ocorreu a partir de 2017, quando se intensificaram as importações diretas das redes de supermercado no Brasil, que já são responsáveis por mais de 30% das importações. “Os volumes importados pelo Chile vem se mantendo nos últimos três anos e o grande destaque é Portugal, que quase duplicou o volume de 2015 (9,9 milhões litros) a 2019 (18,2 milhões) ficando na segunda posição do ranking, a frente de Argentina e Itália”, aponta Andreia. Os vinhos portugueses caíram no gosto do brasileiros por serem fáceis de beber, frescos e leves, impulsionando inclusive a retomada do mercado de vinhos brancos no Brasil.
Com o incremento nas vendes neste primeiro quadrimestre, a participação dos vinhos finos brasileiros passou de 10,1% para 12,7% de janeiro a abril de 2020. “Ainda temos um longo caminho a percorrer, porque a cada 10 garrafas de vinhos vendidas no Brasil, apenas uma é brasileira. Se conquistarmos três garrafas destas dez, os resultados das vinícolas brasileiras serão expressivos e históricos”, diz Deunir Argenta.

*Espumantes*
Com o cancelamento de eventos no Brasil inteiro, quem sofreu foram os espumantes. A queda geral na venda dos rótulos borbulhantes no país é de 11,9% no primeiro quadrimestre do ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Os espumantes brasileiros sofreram mais: a comercialização caiu 25%. Os moscateis sofreram queda de 4%. Só os espumantes importados cresceram 2%. “Por ser uma bebida festiva, o consumo do espumante foi preterido pelos consumidores em favor do vinho”, analisa o presidente da ABS-RS.
O primeiro quadrimestre, porém, não é representativo em termos de vendas de espumantes no Brasil. Andreia Gentilini Milan diz que 70% dos espumantes são comercializados no último quadrimestre do ano. “Esta queda está diretamente relacionada ao cancelamento de eventos, formaturas, casamentos, festas, entre outras comemorações”, explica.

*Tendências de consumo*
Andreia cita algumas curiosidades deste período de pandemia do coronavírus reveladas no curso de Comunicação e Mercado do Vinho da ABS-RS. As pesquisas por vinho no Google aumentaram em 22% desde o início da quarentena. As duas expressões mais buscadas foram “vinho branco” e “vinho tinto”. O Google ainda recebeu um acréscimo de 60% na busca pela frase “como abrir vinho”, 40% em “abridor de vinho” e 38% mais por “taça de vinho”.
A diretora da ABS-RS aponta como tendências de mercado o consumo em casa, a procura por vinhos mais baratos (com boa relação custo-benefício), maior envolvimento do consumidor com a categoria de vinhos, já que há mais tempo disponível para cursos e busca de informações. “A valorização dos produtos locais é uma boa oportunidade para os vinhos brasileiros, assim como a moda dos vinhos rosés e produtos de empresas com responsabilidade ambiental, social e coletiva”, aponta Andreia Gentilini Milan.

*DIRETO AO PONTO*
– Foram vendidos 4,4 milhões de litros de vinho de variedades viníferas (vinho fino), um aumento de 39% de janeiro a abril de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019.
– Foram vendidos 30,6 milhões de litros de vinhos importados, um acréscimo de 7% de janeiro a abril de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019.
– Foram vendidos 35 milhões de litros de vinhos finos nacionais e importados nos quatro primeiros meses de 2020, um incremento de 10% em relação a janeiro e abril de 2019, quando foram comercializados 31,9 milhões de litros.
– No total, foram vendidos 97 milhões de litros de vinhos finos e de mesa nacionais e importados de janeiro a abril de 2020, um crescimento de 21% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram vendidos 79,9 milhões de litros.
– Os espumantes, em geral, tiveram queda de 11,9% no primeiro quadrimestre de 2020, com a venda de 4,1 milhões de litros.
– Os espumantes moscatéis caíram 4%, com a venda de 1 milhão de litros.
– Os espumantes importados tiveram um acréscimo de 2%, com a venda de 1,5 milhão de litros no primeiro quadrimestre de 2020.
– Os espumantes brasileiros registram uma diminuição de 25% no primeiro quadrimestre de 2020, com a venda de 1,6 milhão de litros.