A Toscana Brasileira

Por Viviane Weirich | Advogada OAB|RS 117.008

 

Viviane Weirich

A pandemia trouxe várias descobertas, não só no campo da medicina. Foi possível compreender que é muito bom fazer turismo no quintal de casa, no bairro ou nos arredores. Os olhos voltaram-se para trajetos curtos, cercados de natureza, que nos inspiram pela beleza das cores, dos aromas, da gastronomia, dos bons vinhos e pelo simples prazer de sair, por instantes, do confinamento residencial. Os roteiros turísticos do Vale do Vinhedos e dos Caminhos de Pedra tornaram-se referência. O sotaque passou a ser carregado, ouve-se o dialeto também dos frequentadores e não apenas dos que lá residem.
​Outros municípios acordaram para essa mesma percepção de seus moradores. É possível fazer um trajeto curto e repleto de beleza, passeando pelo interior de diversos municípios, começando por São Vendelino e terminando lá para as “linhas” de Flores da Cunha.
​Esse trajeto traz uma peculiaridade que sobressai aos demais roteiros, porque ainda está em construção e comprometido com a ideologia da manutenção da destinação turística por eles assinalada. É em Farroupilha, por exemplo, que se encontra a “Capital do Moscatel”, sem nenhum conflito com a vizinha “Capital do Espumante” ou ainda, nas diversas paradas pelo caminho, o entardecer dourado nos jardins das vinícolas que compõem o trajeto, que comungam aos seus frequentadores, além do pôr do sol, uma diversificada carta de vinhos, espumantes e boa gastronomia.
​As postagens nas redes sociais, pelas centenas de frequentadores, revelam uma paisagem por muitos identificada como a “Toscana Brasileira”. Fazem jus ao adjetivo, já que os empreendedores focam na beleza dos montes, no plantio de videiras cuidadosamente dispostas, cercadas por ciprestes e oliveiras que parecem emoldurar uma obra de arte, tendo por pano de fundo o dourado do entardecer. Esmeram-se na boa arquitetura, no capricho dos detalhes e no bem servir, apropriando-se gentilmente das belezas naturais para encantar seus visitantes.
​Ao revés, nossos roteiros turísticos parecer receber, de braços abertos, mais do que turistas, ocupando-se com grandes empreendimentos, como hotéis e condomínios fechados que ostentam muros e guaritas imponentes, assentadas sobre espaços que outrora mantinham centenárias videiras, dando azo assim, à especulação imobiliária, sem nenhuma proposta concreta de proteção ou de manutenção do que é a essência da criação desses espaços: a destinação turística que tornou o Vale e os Caminhos o que são hoje.
​É triste observar o abandono do Poder Público e a falta de comprometimento de uma gestão que deveria ser focada na manutenção da destinação original das propriedades. Um entendimento entre os municípios limítrofes, num único propósito de conciliar a forma de desenvolvimento desses importantes roteiros deverá passar pela agenda dos candidatos à majoritária, já que, ao que tudo indica, não será pacífico o convívio de hóspedes e moradores com o tratamento fitossanitário empregado no cultivo das videiras, dentre outros aspectos.
​A “Toscana Brasileira”, que discretamente ganha corações, postagens e passa a figurar na preferência dos turistas nas postagens de redes sociais, nos ensina com a inocência de quem está começando, o quanto é necessário proteger, planejar e evoluir com consciência e respeito para aqueles que lá residem e que, com seu trabalho, costume e modo de viver, não podem, em nenhuma hipótese, serem massacrados pelo crescimento desordenado e a especulação imobiliária, que já assenta residência nos roteiros turísticos de nosso município.
​Que os candidatos aos cargos de prefeito e vereadores tenham essa consciência, de que ainda é possível idealizar um modelo de cooperação entre os municípios e, quem sabe, estender e incluir à “Toscana Brasileira” nossos roteiros turísticos.