Além do Vale Central

Júlio César Kunz – Engenheiro de Alimentos formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Mestre em Negócios do Vinho pela Université de Paris Ouest/ Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV)

Não era a primeira que vez que eu ia ao Chile, mas foi a primeira em que realmente compreendi um pouco sobre a riqueza de seu território para a elaboração de vinhos. O valor dos vinhos, aviso desde já, não deve estar nos julgamentos de qualidade, sempre subjetivos e com validade tão longa quanto de uma paixão de uma noite de verão. A multiplicidade de cores, aromas e sabores é que faz um país ser destaque na elaboração de vinhos. É assim nos países mais tradicionais, como França, Itália, Espanha e Portugal, também deveria ser nos países do Novo Mundo.
O consumo de vinhos finos no Brasil foi moldado em grande medida pela chegada massiva de vinhos chilenos, argentinos e uruguaios a partir dos anos 1990. Os chilenos foram os que mais caíram no nosso gosto, sendo o número em vendas da categoria há diversos anos. Em geral, os vinhos daquele país têm aromas de frutas maduras, são um pouco mais alcoólicos, com taninos macios (não amarram tanto a boca) e, diversos deles, são levemente adocicados. Essas características têm tudo a ver com a nossa culinária tão afeiçoada à doçura e às frutas.
Acontece que não são todos os vinhos chilenos que são assim. Esse perfil de vinho é típico do Vale Central, que até os anos 1980 era a única indicação de procedência chilena. Essa região, numa zona de influência chamada Entre Cordilleras, é muito seca e quente – um clima que gera naturalmente os vinhos que acabei de descrever. Já naquela década, começaram esforços para buscar as diferenças existentes entre os diferentes vales de norte a sul. Porém, a diversidade chilena traz consigo certo mistério.
Na viagem a que me referi no início do texto, fui conduzido por ninguém menos que Mario Geisse, enólogo chileno de grande experiência e responsável por grandes vinhos elaborados no seu país de origem e espumantes no Brasil. Então, ele me revelou a chave mais importante para compreender o país de geografia mais peculiar da América do Sul: “Há mais diferenças entre leste e oeste que de norte a sul”. É claro que ele não falava dos exageros do deserto do Atacama ou dos Glaciais ao sul, mas aquilo me impressionou.
O Chile tem 4.300 km de norte a sul, enquanto a de leste a oeste a média são de apenas 173 km. E são nesses menos de 200 km que os vinhos chilenos apresentam o seu maior colorido. Em regiões de influência Costa (alguns vinhos levam essa palavra no rótulo), como, por exemplo Limarí, encontramos vinhos brancos de grande frescor e Pinot Noir de excelente qualidade. Já a zona Andes dá origem a vinhos ícones, mais estruturados e de aromas extremamente complexos – de lá vêm também alguns cortes bordaleses, num país os varietais são mais clássicos.
Com toda essa variedade, é preciso arriscar-se em novas regiões chilenas para se descobrir grandes surpresas em vinhos agradavelmente inesperados.