Sucessão familiar na propriedade Corbellini esta garantida

Três gerações de agricultores da mesma família falam sobre os desafios e as mudanças no campo

Na família Corbellini a sucessão familiar está garantida. Milan Corbelini deu andamento ao trabalho do pai Selmar que, por sua vez, seguiu seu pai Benino. Na foto, da esquerda para direita, Gladis, Selmar, Milan, técnico agrícola da Emater, Vanderlei Roncato, o avô Benino e a avó Mélia Foto: Marlove Perin

A manutenção do jovem no campo é um tema fundamental para planejar o futuro da propriedade rural. A sucessão familiar é uma das principais preocupações do setor agrícola. A falta de pesquisas sobre o tema deixa o setor trabalhando às cegas. A falta de internet, de estradas asfaltadas, a incerteza de uma boa colheita, as doenças nas produções e a remuneração incerta são alguns dos motivos. A última pesquisa sobre o assunto no RS foi realizada pela Fetag, em 2005. Os dados apontavam que 30% das propriedades não teriam sucessão familiar. Segundo Elson Schneider, Presidente do Sindicato Rural da Serra Gaúcha, atualmente, o êxodo rural no município deve ser maior do que aponta a pesquisa. – Os jovens estão deixando o campo pelas oportunidades da cidade. Alguns retornam para o campo, mas é muito pouco.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou neste mês os resultados preliminares do Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola 2017, cuja coleta de dados foi realizada entre outubro de 2017 e fevereiro de 2018, em todos os estabelecimentos agropecuários do território brasileiro. De acordo com a pesquisa, Garibaldi conta com 823 propriedades rurais, sua maioria (276) de área entre 10 e 20 hectares. Do total, 655 conta com lavouras permanentes (como uva), 517 com lavouras temporárias e 424 com pastagens naturais. Entre os trabalhadores rurais, 745 são homens e 63 mulheres. 417 têm idade entre 30 e 60 anos, 378 são maiores de 60 anos e apenas 13 trabalhadores têm menos de 30 anos de idade.

Para o secretário municipal de Agricultura e Pecuária, André Busa, é natural que ocorra reduções no trabalho no setor primário ao longo dos anos, especialmente entre os mais jovens. “Ao mesmo tempo em que há cada vez mais facilidades para o trabalhador rural, os jovens buscam essas facilidades na área urbana”, avalia. “Hoje podemos considerar os trabalhadores verdadeiros empreendedores rurais, com uma grande importância econômica e cultural para o município, por isso mantemos nossas ações de incentivo para o desenvolvimento do setor”, acrescenta.

Entre os itens produzidos, os mais presentes no município são:

Produtos da lavoura permanente
Uva para vinho ou suco – produzida em 590 estabelecimentos agropecuários
Laranja – produzida em 156 estabelecimentos agropecuários
Bergamota – produzida em 95 estabelecimentos agropecuários
Caqui – produzido em 87 estabelecimentos agropecuários
Figo – produzido em 87 estabelecimentos agropecuários
Pêssego – produzido em 81 estabelecimentos agropecuários
Limão – produzida em 70 estabelecimentos agropecuários
Uva de mesa – produzida em 57 estabelecimentos agropecuários

Produtos de lavouras temporárias
Milho em grão – produzido em 369 estabelecimentos agropecuários
Feijão preto em grão – produzido em 69 estabelecimentos agropecuários
Milho forrageiro – produzido em 67 estabelecimentos agropecuários
Cebola – produzida em 64 estabelecimentos agropecuários

Selmar, Milan e Benino Corbelini

Horticultura
Alface – produzida em 54 estabelecimentos agropecuários
Tomate – produzido em 34 estabelecimentos agropecuários
Rúcula – produzida em 30 estabelecimentos agropecuários
Salsa – produzida em 30 estabelecimentos agropecuários

Uma das temáticas fundamentais será a permanência do jovem no campo. “É natural que qualquer pai queira que seu filho seja seu sucessor, mas hoje a nova geração tem opções e precisa estar motivada a ficar”, observa Schneider. Para o consultor, fatores como renda, vocação natural, participação nas decisões e inovação tecnológica e acesso à internet podem ser fundamentais. “O jovem também quer tempo livre para atividades de lazer e o reconhecimento da família”, complementa. É por isso que o processo de sucessão deve ser pensado desde cedo, promovido pelos próprios pais. “O debate da sucessão é uma das questões mais importantes do meio rural”, conclui.

Na família Corbellini, de Santo Antônio do Araripe interior de Garibaldi a sucessão familiar esta garantida. “Meu pai ele adquiriu essa propriedade aqui em 1973. Mas ele passou um monte de necessidades aqui, porque estava abandonado” diz Selmar Eduardo Corbelini, 55 anos. “Quando eu vim morar aqui, não tinha nem comida pra comer. E daí começamos a lavrar a parreira junto com os bois e o arado. Hoje em dia a mecanização da agricultura ajudou muito a alavancar a produção e a forma de trabalho” explica Benino Corbellini, 81 anos. “Aí ele foi começando, devagarzinho, melhorando os parreirais, até que a gente chegou nesse ponto que a gente chegou hoje. Mas são 45 anos de história já. Tem cinco na propriedade. O vô e a vó, mais eu e minha esposa e meu filho Milan” conta Selmar. “Eu tenho meu filho, a tendência é ele permanecer na agricultura e tocar a propriedade, inovando, melhorando cada vez mais” complementa. “isso aqui é um trabalho que vem do meu avó e como ele diz, é um pecado abandonar. Com sete, oito anos eu acompanhava nos parreirais. A mesma coisa como se fosse hoje, dirigindo o trator. Eu não alcançava os pedais, me colocavam em cima, davam partida e eu só segurava na estrada. Aí, com o tempo, eu fui aprendendo e fui me virando. A uva, além da história, pra nossa família, é a fonte de renda principal. Isso aqui vem de 140 anos atrás, que meus avós vieram da Itália e trouxeram pra cá esse tipo de cultura. Quando e tiver meus filhos, eu quero que tente fazer o máximo para que ele fique e dê sequencia aqui na propriedade. Até que eu conseguir trabalhar eu não tenho ideia de sair da propriedade , da colônia.” diz Milan Corbelini, 26 anos, técnico agrícola.

Benino foi o primeiro Agricultor do Ano, prêmio instituído em 1999 pela Prefeitura de Garibaldi com o objetivo de agraciar agricultores que valorizassem o trabalho na agricultura. Com o filho Mílan tocando a sucessão da propriedade, Selmar não tem o problema de muitos agricultores, que é pensar em quem irá sucedê-los no futuro. No entanto, Selmar alerta que é preciso que os pais deem mais liberdade aos filhos dentro da propriedade, num trabalho de parceria entre os dois. Para ele, o pai precisa ver o filho como um “sócio”, ao invés de um empregado. E na família Corbellini, cabe a Mílan dar a continuidade ao trabalho iniciado por Benino e que segue com Selmar.