Falta de frio preocupou produtores rurais

Frutíferas precisam de mais de 400 horas de baixas temperaturas para uma boa colheita e até o momento não foram registramos nenhuma hora de frio

A falta de frio para a época do ano tem preocupado os produtores rurais neste 2019. A poucos dias do começo do inverno, não apenas a falta de temperaturas baixas, mas o registro de médias acima dos 20ºC tem causado transtornos para os agricultores da região. Muitas variedades necessitam de várias horas de temperaturas abaixo de 7,2ºC para poderem dar flores e frutos em sua melhor forma. Os produtores de uva também temem perdas na safra da uva pela falta de frio constante, até agora não contabilizaram nem uma hora de frio considerável para o cultivo. É preciso pelo menos de 400 a 500 horas de frio nesta época do ano para uma boa colheita no verão.
Na propriedade do agricultor Ricardo De Mari em Monte Belo do Sul a variedade moscato já esta brotando. “Se tivermos geada, que é muito provável pois o inverno recém começou, o fenômeno vai comprometer toda a produção e podemos perder grande parte da safra” diz Ricardo preocupado com o clima e o calor fora de época.

Sem frio neste ano, a variedade moscato já iniciou a brotação na propriedade de Ricardo De Mari em Monte Belo do Sul

O engenheiro agrônomo, mestre em fitotecnia e doutor em fisiologia vegetal Henrique Pessoa dos Santos, pesquisador Embrapa Uva e Vinho explica:
1) Estamos vivendo uma onda de calor fora de época. Como essa onda de calor pode prejudicar a safra de vinho do próximo ano? Considerando um registro desde de 2009 na Embrapa, esse é o primeiro ano em que não registramos nenhuma hora de frio (horas com temperatura menor que 7,2°C) neste período. Os anos de 2010 e 2011 não registraram frio até final de maio, mas em junho apresentaram uma soma expressiva de frio (48 e 106 HF, respectivamente). Em 2015 que foi um dos anos com menor soma de frio durante o outono/inverno (total 145 HF), já registrava em junho 77 horas de frio. Portanto, esse outono de 2019 (até o dia 18/06) está sendo um dos mais quentes dos últimos 10 anos. Essa ausência de frio combinada com mais de 20 dias de precipitação atrasou a indução do estado de dormência e a queda das folhas na maioria das videiras da Serra Gaúcha. Em parte, pela continuidade de dias nublados, essas condições evitaram também muitas brotações precoces de outono, que normalmente ocorrem na região. Contudo, com a ausência de frio até o momento, as videiras não aprofundaram e uniformizaram o estado de dormência das gemas, podendo iniciar a brotação a qualquer momento durante esses dias de outono/inverno, se esta condição quente persistir. Se ocorrer a brotação neste período, certamente irá ocorrer e a queima destes brotos com as ondas de frio subsequentes (pois estamos no período de outono/inverno e isso pode ocorrer), o que pode impactar na quantidade de produção da próxima safra. Mas, destaco que ainda é cedo para garantir ou prever esse cenário pessimista. Algumas videiras já apresentaram brotações nesta última semana, mas se na sequencia ocorrer frio contínuo a perda dessas brotações não é relevante para a produção da safra seguinte, pois essas brotações são de gemas apicais que são retiradas no momento da poda.
2) Quantas horas de frio é necessário para uma boa safra? Procede a informação que é de 400 a 500 horas? Isso representa quantos meses? As exigências de frio são variáveis entre as cultivares. Nas uvas finas (cultivares Vitis vinifera), a exigência de frio é proporcional a época de brotação. As cultivares mais precoces (ex.: Chardonnay) apresentam, em média, uma exigência de 150HF, enquanto as cultivares de brotação intermediária (ex.: Merlot) e tardia (ex.: Cabernet Sauvignon) apresentam 300HF e 400HF, respectivamente. As cultivares de uva comum (ex.: Bordô, Isabel, Niágara) apresentam uma exigência próxima de 100 HF, mas exigem maior soma de calor para brotarem. Diante destas exigências, salienta-se que a ocorrência de no mínimo 300HF já garante uma condição adequada para a maioria das cultivares que são cultivadas na região da Serra Gaúcha. A condição normal (média de 30 anos) é de 409 HF na Serra Gaúcha, mas já ocorreram grandes oscilações nos últimos anos, tais como nos invernos de 2015 (total de 145 HF) e 2016 (total de 536 HF). Este valor quantitativo de frio é importante para a uniformização da dormência e, consequentemente, da brotação na primavera. Entretanto, destaca-se que o inverno adequado nem sempre é aquele que apresenta uma soma expressiva de frio, mas aquele que expõe um frio constante e sem dias quentes intercalados. Além disso, o ideal é que não ocorram ondas de frio tardio na primavera (geralmente em setembro), pois esse é um dos fatores de maior impacto negativo na produção de uva na região. A restrição de frio não é muito problema, pois já se dispõe de indutores químicos para estimular a brotação da videira e contornar esse problema, o que tem possibilitado o cultivo da videira em regiões com ausência total de frio, como no nordeste brasileiro.
3) Existe uma temperatura ideal de frio para uma safra de qualidade? Para a maioria das espécies frutíferas de clima temperado, como videira, macieira, pereira, pessegueiro, etc, considera-se frio quando a temperatura está igual ou inferior a 7,2°C. Essa é uma referência teórica, pois equivale a 45 ° F (escala Fahrenheit, utilizada para temperatura em alguns países, como EUA), mas se aproxima das condições de frio para a maioria das espécies. No caso da videira, na literatura alguns trabalhos também consideram frio quando a temperatura está igual ou abaixo de 10°C. O estado de dormência das gemas nestas espécies frutíferas é ativado pela redução do comprimento do dia, ao longo do outono, e é aprofundado pelos primeiros dias frios (dias que apresentam algumas horas com temperaturas inferiores à 7,2 °C). Ou seja, essas espécies de clima temperado ativam o estado de dormência para suportar o frio congelante do inverno. Essa soma de tempo em temperaturas de frio é o fator que as plantas monitoram fisiologicamente para saírem deste estado de dormência e atingirem a brotação plena na primavera, sem o risco de temperaturas congelantes que todos os tecidos verdes (ex.: folhas) não toleram. Por isso, o problema de invernos quentes é quando ocorrem ondas de frio intercaladas com muitos dias quentes, permitindo a brotação antecipada e seguida de dados por congelamento. Ou seja, o ideal é que ocorram invernos com dias frios constantes, sem a ocorrência de frios tardios (pós data de brotação).
4) Se o calor continuar seria possível já ter uma ideia de prejuízos? Essa pergunta já foi respondida na primeira questão. Pode ter impactos, mas ainda é cedo para prever os prejuízos. Se as condições mudarem nos próximos dias, com a entrada do frio de modo constante, seguido de uma primavera quente e sem frios tardios, podemos dispor das condições ideias para uma boa safra.

Difícil do preço baixar
O governador Eduardo Leite anunciou o fim da substituição tributária, imposto presumido pago por vinícolas que faz com que vinhos produzidos aqui no Serra custem mais barato em outros estados sem a tributação. Há expectativa de representantes do setor vinícola de que os preços de vinhos possam diminuir de 4% a 10% a partir de setembro, mas se houver quebra de safra por falta de frio, a redução do imposto nem será sentida no ano que vem. Será compensada pelo aumento dos produtos pela redução da demanda da uva.

O balanço da safra
Na semana passada terminou o prazo para as vinícolas declararem quanto de uva processaram na colheita deste ano. A expectativa e de que, até o final do mês, seja divulgado o balanço oficial da safra 2019, mas estimativa da Emater na Serra é superar a expectativa inicial de 650 mil toneladas.