Pesquisador da Embrapa Uva e Vinho avalia frio para a agricultura

Ao analisar as previsões matemáticas da MetSul Meteorologia para a queda drástica na temperatura que ocorreu na primeira semana de julho, o Pesquisador de Fisiologia Vegetal da Embrapa Uva e Vinho, Henrique Pessoa dos Santos, reforça que “as temperaturas baixas foram muito expressivas na primeira semana de julho, atingindo valores negativos (temperaturas congelantes). Nestas condições, ocorreu fortes geadas e temperaturas negativas em várias regiões da Serra Gaúcha. Lembrando que o inverno adequado nem sempre é aquele que apresenta uma soma expressiva de frio, mas aquele que expõe uma condição de frio constante e sem dias quentes intercalados, o pesquisador avalia que “o ideal é que não ocorram ondas de frio tardio na primavera (geralmente em setembro), pois esse é um dos fatores de maior impacto negativo na produção de uva na região sul do Brasil. A restrição de frio não é muito problema, pois já se dispõe de indutores químicos para estimular a brotação da videira e contornar esse problema, o que tem possibilitado o cultivo da videira em regiões com ausência total de frio, como no nordeste brasileiro.”
Dados medidos na estação agrometeorológica da Embrapa Uva e Vinho em Bento Gonçalves, mostram que, de primeiro a 20 de julho houve a acumulação de 137 horas de frio (HF, horas com temperatura menor ou igual a 7,2°C). Este valor é bem superior às 87 horas de frio que normalmente ocorrem nestes dois decêndios do mês de julho. Segundo o pesquisador Jorge Tonietto da Embrapa Uva e Vinho, os primeiros 7 dias de julho foram os que mais contribuíram para a obtenção destes significativos valores. Com isto, estamos com um somatório de 166 horas de frio (HF) no ano, valor menor que as 242 horas que são acumuladas em média até esta data, representando 69% em relação à normal. Isto se explica pelo comportamento dos meses de abril e maio, que não tiveram acumulação de horas de frio e também pelo mês de junho, que apresentou apenas 29 horas de frio (HF), bem abaixo das 104 HF que ocorrem em média no mês de junho.
Entendendo as necessidades de frio para as videiras
Segundo pontua o pesquisador Henrique Pessoa dos Santos, o total de horas de frio para indução e superação é denominado “exigência de frio”, sendo variável entre as cultivares. Nas uvas finas (cultivares Vitis vinifera), a exigência de frio é proporcional a época de brotação. As cultivares mais precoces (ex.: Chardonnay) apresentam, em média, uma exigência de 150HF, enquanto as cultivares de brotação intermediária (ex.: Merlot) e tardia (ex.: Cabernet Sauvignon) apresentam 300HF e 400HF, respectivamente. As cultivares de uva comum (ex.: Bordô, Isabel, Niágara) apresentam uma exigência próxima de 100 HF, mas exigem maior soma de calor para brotarem. Diante destas exigências, salienta-se que a ocorrência de no mínimo 300HF já garantiria uma condição adequada para a maioria das cultivares que são cultivadas na região da Serra Gaúcha. A condição normal (média de 30 anos) é de 409 HF na Serra Gaúcha, mas já ocorreram grandes oscilações nos últimos anos, tais como nos invernos de 2015 (total de 145 HF) e 2016 (total de 536 HF).

Temperaturas baixas x influencia na agricultura
Segundo o pesquisador, para a maioria das espécies frutíferas de clima temperado, como videira, macieira, pereira, pessegueiro, etc, considera-se frio quando a temperatura está igual ou inferior a 7,2°C. Essa é uma referência teórica, pois equivale a 45° F (escala Fahrenheit, utilizada para temperatura em alguns países, como EUA), mas se aproxima das condições de frio para a maioria das espécies.”
“No caso da videira, esclarece Pessoa dos Santos, na literatura alguns trabalhos também consideram frio quando a temperatura está igual ou abaixo de 10°C. O estado de dormência das gemas nestas espécies frutíferas é ativado pela redução do comprimento do dia, ao longo do outono, e é aprofundado pelos primeiros dias frios (dias que apresentam algumas horas com temperaturas inferiores à 7,2 °C). Ou seja, essas espécies de clima temperado ativam o estado de dormência para suportar o frio congelante do inverno. Na sequência, a ocorrência de dias frios é considerado pelas plantas para sair do estado de dormência, permitindo a brotação apenas na primavera quando as temperaturas permitem o crescimento, sem o risco de temperaturas congelantes que todos os tecidos verdes (ex.: folhas) não toleram.
O total de horas de frio para indução e superação é denominado “exigência de frio”, sendo variável entre as cultivares. Nas uvas finas (cultivares Vitis vinifera), a exigência de frio é proporcional a época de brotação. As cultivares mais precoces (ex.: Chardonnay) apresentam, em média, uma exigência de 150HF, enquanto as cultivares de brotação intermediária (ex.: Merlot) e tardia (ex.: Cabernet Sauvignon) apresentam 300HF e 400HF, respectivamente. As cultivares de uva comum (ex.: Bordô, Isabel, Niágara) apresentam uma exigência próxima de 100 HF, mas exigem maior soma de calor para brotarem. Diante destas exigências, salienta-se que a ocorrência de no mínimo 300HF já garantiria uma condição adequada para a maioria das cultivares que são cultivadas na região da Serra Gaúcha. A condição normal (média de 30 anos) é de 409 HF na Serra Gaúcha, mas já ocorreram grandes oscilações nos últimos anos, tais como nos invernos de 2015 (total de 145 HF) e 2016 (total de 536 HF).
Em resumo, quando as horas de frio do ambiente corresponde as exigências da cultura, as plantas ativam fisiologicamente a superação da dormência e podem atingir a brotação plena na primavera. Por isso, o maior problema para espécies frutíferas é quando o inverno apresenta ondas de frio intercaladas com muitos dias quentes, permitindo a brotação antecipada (no meio do inverno) antes de dias com temperaturas congelantes. Ou seja, o ideal é que ocorram invernos com dias frios constantes, sem a ocorrência de frios tardios (após data de brotação).
Neste momento (início de julho) todas as espécies frutíferas já entraram no estado de dormência e ainda não atingiram as exigências mínimas de HF. Nesta condição fisiológica, as espécies frutíferas de clima temperado são capazes de tolerar temperaturas de -15 a -28 °C sem danos fisiológicos. Esses limites de temperatura negativa nunca ocorreram (e certamente não ocorrerão) aqui no Sul do Brasil. Portanto, qualquer temperatura baixa que ocorrer neste mês só trará benefícios para as culturas, auxiliando para superação do estado de dormência e garantindo uma brotação mais uniforme na próxima primavera.