Ondas de frio de julho e agosto compensam chegada tardia do inverno e favorecem agricultura

O que se observou neste ano é que o primeiro frio chegou tarde, em 21 de junho Foto: Marlove Perin

Na propriedade do agricultor Ricardo De Mari em Monte Belo do Sul a variedade moscato estava brotando no mês de junho, porém o frio registrado nos meses seguintes “parou” a brotação Foto: Marlove Perin

O inverno irregular deste ano, com alternância entre ondas de frio intenso e dias de calor, irá atingir uma quantidade suficiente de horas de frio para que as próximas safras de frutas sejam promissoras na Serra. Conforme o agrônomo Ênio Todeschini, da Emater, embora o frio tenha chegado de forma tardia neste ano, as ondas de frio de julho e agosto compensaram, e a perspectiva é de que as lavouras tenham uma brotação “regular, uniforme e vigorosa”.
A média anual de horas de frio na Serra, de acordo com a medição feita pela Embrapa Uva e Vinho de Bento Gonçalves, onde está instalada uma estação meteorológica do Inmet, é de 409 horas. É considerada hora de frio a que teve a temperatura menor que 7,2ºC.
Conforme a Embrapa Uva e Vinho, o número de horas de frio acumulado até a quarta-feira (21) foi de 171 horas (HF, horas com temperatura menor ou igual a 7,2°C). Ainda durante o mês de julho, as temperaturas médias máxima, média mínima e média se mantiveram próximas aos padrões normais, de acordo com as normais climatológicas. O volume de chuvas registrado, 35 mm, ficou muito abaixo do esperado (161 mm), de acordo com a normal climatológica.
As baixas temperaturas dos últimos dias, a quantidade de horas de frio vai ficar bem próxima da média neste ano. A alternância entre dias de frio e calor não vai afetar as plantas, até porque esse fenômeno é normal em agosto. O que se observou neste ano é que o primeiro frio chegou tarde, em 21 de junho. Alguns pessegueiros e até vinhedos tinham começado a brotar. Na edição de junho, mostramos em uma reportagem que algumas variedades de uvas já tinham iniciado a brotação. Mas as ondas de frio que vieram depois travaram as plantas. Ainda existe a possibilidade de uma geada tardia em setembro, por exemplo, trazer prejuízo. Mas, até o momento o comportamento do clima tem sido bom para a agricultura.

As horas de frio são necessárias para que as plantas economizem energia durante o inverno para se desenvolverem melhor até a safra. O Pesquisador de Fisiologia Vegetal da Embrapa Uva e Vinho, Henrique Pessoa dos Santos, reforça que “as temperaturas baixas foram muito expressivas atingindo valores negativos (temperaturas congelantes). Nestas condições, ocorreu fortes geadas e temperaturas negativas em várias regiões da Serra Gaúcha. Lembrando que o inverno adequado nem sempre é aquele que apresenta uma soma expressiva de frio, mas aquele que expõe uma condição de frio constante e sem dias quentes intercalados, o pesquisador avalia que “o ideal é que não ocorram ondas de frio tardio na primavera (geralmente em setembro), pois esse é um dos fatores de maior impacto negativo na produção de uva na região sul do Brasil.

Ainda existe a possibilidade de uma geada tardia em setembro, por exemplo, trazer prejuízo. Mas, até o momento o comportamento do clima tem sido bom para a agricultura Foto: Marlove Perin

Uvas exigem diferentes horas de frio na Serra

A Niágara, por exemplo, uma das primeiras a ser colhida, precisa de, no mínimo, 100 horas Foto: Marlove Perin

Cada variedade de uva precisa de um número mínimo de horas de frio. Quanto mais precoces, menor é a necessidade de frio. A Niágara, por exemplo, uma das primeiras a ser colhida, precisa de, no mínimo, 100 horas. No entanto, Moscato e Cabernet, geralmente colhidas em fevereiro, necessitam de 400 horas (ver quadro).
O engenheiro agrônomo da Emater Regional de Caxias do Sul Ênio Todeschini assegura que as baixas temperaturas já registradas na Serra garantem uma safra de boa qualidade.
El nino
No período entre meados de julho e meados de agosto de 2019, observou-se um resfriamento da água do mar na região central-leste do oceano Pacífico Equatorial, que é a área oceânica tecnicamente analisada para se saber se está ocorrendo um fenômeno El Niño ou La Niña.
A anomalia (diferença em relação à média) da temperatura superficial do mar estava negativa indicando que a temperatura estava abaixo do normal
Na segunda semana de agosto de 2019, a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), dos Estados Unidos, anunciou que o El Niño já estava desconfigurado. A situação atual é de neutralidade no oceano Pacífico Equatorial Leste. Isto quer dizer que não se pode definir um El Niño e nem um evento La Niña.

Aplicativos para acompanhar as previsões do tempo
Existem diversos aplicativos gratuitos que nos permitem acompanhar o clima na nossa região. Alguns aplicativos e sites que você pode adquirir e consultar gratuitamente são: SOSChuva, Climatempo, Agritempo, CPTEC/INPE e INMet.
Atualmente existem diversas empresas que possuem soluções como estações meteorológicas para serem instaladas na propriedade. Tais estações conseguem enviar dados remotamente ao seu celular para que seja possível o correto planejamento do manejo em sua propriedade.

  • Quantas horas de frio cada variedade precisa
    Niágara (entre 100 e 200 horas)
    Isabel (200 e 300)
    Bordô (100 e 200)
    Lorena (200 e 300)
    Merlot (300 e 400)
    Moscato (300 e 400)
    Cabernet (300 e 400)
    Fonte: Emater

Julho de 2019 foi o mês mais quente história

O mês de julho foi o mais quente no planeta nos últimos 140 anos Foto: Marlove Perin

O mês de julho foi o mais quente no planeta nos últimos 140 anos, informou a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos – NOAA. Os dados da agência americana confirmam conclusões divulgadas no início do mês pelo serviço europeu Copernicus sobre mudança climática, que também havia apontado julho deste ano como o mês mais quente já registrado.
Segundo os cientistas da instituição americana, durante o mês de julho a média global das temperaturas foi 0,95°C superior à média de todo o século 20, que foi de 15,77°C, o que torna julho de 2019 o mês mais quente nos registros da agência, que começaram em 1880.
No relatório, a NOAA lembrou que nove dos dez meses de julho mais quentes da história foram registrados desde 2005, sendo os dos últimos cinco anos os que tiveram as maiores temperaturas.
O calor sem precedentes em julho reduziu o gelo nos Oceanos Ártico e Antártico a mínimos históricos. O gelo do Oceano Ártico atingiu uma baixa recorde em julho, ficando 19,8% abaixo da média – superando a baixa histórica anterior, de julho de 2012. O gelo marinho médio da Antártica, por sua vez, ficou 4,3% abaixo da média de 1981-2010, atingindo seu menor tamanho para julho nos registros de 41 anos.
A NOAA afirmou que 2019 foi o ano com maiores temperaturas até o momento em partes da América do Sul e do Norte, Ásia, Austrália e Nova Zelândia, assim como na metade meridional da África e em porções do oeste do Oceano Pacífico, do oeste do Oceano Índico e no Oceano Atlântico. O Alasca teve seu mês de julho mais quente desde que começou a fazer registros, em 2005.
Recordes de temperatura também foram quebrados em diversos países europeus, como a Alemanha, Bélgica ou Holanda. Em Paris, por exemplo, os termômetros marcaram 42,6°C, a temperatura mais alta já registrada na capital francesa, ultrapassando o recorde anterior de 40,4°C alcançado em 1947.
Nesse sentido, o relatório americano ressaltou que entre janeiro e julho deste ano, a temperatura global esteve 0,95 graus acima da média do século passado, que foi de 13,83 graus centígrados, empatando com 2017 como o segundo ano mais quente até o momento (2016 é considerado até hoje o ano mais quente).
O novo recorde é ainda mais notável porque o anterior seguiu um forte El Niño, que aumenta a temperatura média do planeta independentemente do impacto do aquecimento global.

Flagrante da perda de cobertura gelo na Groenlândia: derretimento despeja água doce no Atlântico Norte e está provocando mudanças em corrente marítima importante para a estabilidade climática do planeta Foto: AP/Ian Joughin