Desafios das mães na pandemia, por Jamile Comin, psicóloga

A temática do texto deste mês foi inspirada pelas demandas de mães surgidas neste período de pandemia. Estas relatam sentirem-se sobrecarregadas, uma vez que entre suas tarefas está a resolução de conflitos que ocorrem na convivência diária no ambiente doméstico. Tais conflitos foram exacerbados neste período, gerando estresse para as mães.
Embora saiba que a pandemia esteja afetando a todos, o foco das reflexões do texto deste mês irá focar-se nas mães e nas suas dúvidas, angústias e medos. Um primeiro aspecto a ser avaliado para compreender o momento vivido pelas mães é a relação coparental. Mães e pais sentem-se estressados e pressionados. Contudo, é necessário que o casal possa ter um espaço para compartilhar seus sentimentos e elaborar estratégias conjuntas para superar as situações difíceis. Para tanto, é preciso que as mães possam perceber o apoio dos pais no tocante aos cuidados com os filhos e à execução das tarefas domésticas.
Entende-se que mães que recebem apoio se sentem calmas, amparadas e, como consequência, menos sobrecarregadas. Mães que não recebem apoio tendem a receber estresse coparental. Desta forma, um pai participativo nas responsabilidades da casa é fundamental.
Diante de um conflito que ocorre no ambiente doméstico, deve se questionara avaliação que a mãe faz deste e do  engajamento do pai em sua resolução. Quando ocorre a percepção da adoção por parte do pai de um estilo mais agressivo para com os filhos, de negligência em relação ao conflito, afastando-se do mesmo ou fingindo não vê-lo, e de conformidade para com a situação, fazendo concessões ou evitando o diálogo, a situação da relação coparental tende para o lado negativo. Com isto, haverá dificuldades no manejo e na resolução do conflito e maior estresse para a mãe.

Infelizmente, os resultados apontam para o predomínio do polo negativo. Assim, as mães tendem a sofrer de um estresse coparental maior com prejuízos a sua saúde mental. Contudo, é importante ressaltar que o que acontece em uma família não irá se repetir em todas as famílias necessariamente. Esses resultados conduzem à reflexão sobre a relação conjugal e suas repercussões no cuidado com os filhos, nas tarefas domésticas e nos conflitos familiares. A desigualdade de responsabilidades de mães e de pais no ambiente familiar parece conduzir ao predomínio do polo negativo do contexto coparental, mas isto não significa que tal situação permanecerá inalterada.
Um primeiro passo é lembrar que os modelos de cuidados associados ao masculino e ao feminino podem (e devem) se revistos pelo casal. Isto porque o cuidado com os filhos é uma tarefa compartilhada. Em momentos mais estressores, como o da pandemia, o diálogo e as renegociações entre o casal são importantes e necessários. A diminuição do estresse coparental conduzirá não apenas a melhora de saúde mental das mães, mas de toda a família.